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Eu na Arena ! A torcida na África do Sul, o legado da Copa e um ‘elefante branco’

UOL Esporte

(Crédito das fotos: Arquivo pessoal)

Por Thaís Pinheiro*

Em uma viagem, seja para longe ou para ali perto, não há melhor jeito de conhecer a cultura de um povo senão vivenciando suas atividades cotidianas. Eu, em um intercâmbio na África do Sul, não perderia a oportunidade de ver como eles se relacionam com futebol, uma das maiores paixões brasileiras – e minha também – e que pode dizer tanto sobre o comportamento humano.

Naquele país, o futebol ganhou destaque em 2010 por conta da Copa do Mundo, e eu aproveitei para conhecer um dos estádios que receberam os jogos oficiais, na Cidade do Cabo, onde estava morando. O “Cape Town Stadium'' é um dos novos monumentos da cidade, é sempre um ponto de referência. Mas, aos poucos, é possível entender por que os moradores dali o consideram um verdadeiro “elefante branco''.

Lendo os jornais locais, ficamos sabendo – eu e alguns amigos – que naquela semana aconteceria um clássico, válido pelo campeonato nacional, entre Ajax e Santos. Fomos logo comprar ingressos para garantir nossos lugares. Eu, que frequento estádios aqui no Brasil e estou acostumada com a violência que cerca os clássicos, logo me preocupei em pesquisar quais as cores dos uniformes usados pelos times para usar uma roupa “neutra'' e não correr riscos. Não fazia ideia de quão neurótica eu estava sendo!

Pra começar, as torcidas entram juntas e se misturam nas arquibancadas. Sem qualquer sinal de tumulto. E não é aquela empolgação toda que acontece nos jogos por aqui, eles são mais contidos. Apesar de ser um clássico local, o estádio é enorme e não chegou a ter nem mesmo 50% de lotação. Aqui, um truque: nem é preciso pagar 40 rands (R$ 10) pelo ingresso, basta chegar um pouco antes do jogo que sempre tem alguém distribuindo os bilhetes gratuitamente.

O futebol não é o esporte mais popular entre os sul-africanos. Aliás, ele perde de longe para o rúgbi. Conversando com alguns torcedores durante o intervalo da partida, eles deixaram bem claro que essa história de bola nos pés ainda é sinônimo de “esporte para negros”, enquanto a bola oval é ligada à elite branca. Essas são as marcas do apartheid, que se instalou na África do Sul por quase 50 anos e que teve seu fim decretado há quase 20.

Questões raciais à parte, fiquei impressionada com a beleza o Cape Town Stadium. Ao entrar ali e subir as primeiras escadas, já avistei o gramado e, naquela noite, parecia que tinha um sol iluminando toda aquela grama verde. Tudo muito limpo, cadeiras conservadas… De fato, um estádio “de Copa'' é muito diferente do que estamos acostumados a ver por aqui. O modo como a torcida se comporta também. Todos sentados, apenas deixam as suas cadeiras para comemorar um gol ou para “espantar'' uma jogada de perigo. Confesso que foi difícil manter essa postura, logo eu que “vou de arquibancada pra sentir mais emoção''.

Depois dos primeiros 10 minutos, decidi que ia torcer pelo Ajax, que jogava melhor que o Santos – ainda que esse “melhor'' não seja assim tão bom. E logo no primeiro tempo saiu o gol do “nosso'' time. No intervalo, pausa para comprar bebidas e salgadinhos nas cantinas do estádio, com direito a copos de plástico promocionais da Copa de 2010 – viraram souvenir.

No segundo tempo, sentamos mais perto de onde tinha um pessoal mais animado e até uma espécie de “fanfarra'' tocando músicas variadas. O Ajax abriu a guarda e acabou cedendo o empate ao Santos, que em nada lembra o xará dos lados de cá do Atlântico. Fim de mais um jogo por ali, sem muita euforia, bem organizado e que deixou uma dúvida: será que todo o investimento feito em grandes obras como estas têm o devido retorno à população local ou também ganharemos nossos próprios “White elephants''?

*Thais Pinheiro é jornalista e tem 24 anos

 

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